Remédios para ansiedade estão batendo recordes de vendas, mas estamos ignorando o remédio mais óbvio
- Tatyana Bonamigo | Psicóloga

- 13 de mai.
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de mai.

Se eu pudesse engarrafar a espontaneidade e vendê-la na farmácia, o mundo estaria salvo e eu... milionária. Brincadeiras à parte, a verdade é que eu curaria uma quantidade absurda de transtornos mentais que têm a ansiedade como sintoma central.
Para a Psicologia, a espontaneidade é o combustível do comportamento e da autoexpressão. É ter uma liberdade visceral para expressar suas preferências, suas necessidades, suas opiniões e comunicar assertivamente suas emoções, inclusive aquela raiva saudável que tantas vezes você esconde para não incomodar os outros.
Ser espontâneo é quando você se permite brincar e rir de si mesmo, é quando baixa aquele freio de mão puxado que te faz parecer sempre sério, ultraprodutivo ou engomadamente perfeito. A espontaneidade envolve a arte de trabalhar duro, mas também saber a hora de parar e apenas degustar a vida.

Repare ao seu redor ou, melhor ainda, olhe no espelho. Perceba que algumas pessoas parecem fluir pela vida com uma leveza quase irritante, enquanto outras calculam cada palavra e movimento como se estivessem desarmando uma bomba nuclear.
Mas e você? Em que ponto da escala de travamento da espontaneidade está?

A nossa capacidade de ser espontâneo é formada bem cedo, na mistura entre o temperamento que trouxemos de "fábrica" e o ambiente emocional e cultural onde fomos criados.
A espontaneidade e a ludicidade são uma das cinco necessidades emocionais básicas e universais de qualquer ser humano.
Nascemos precisando brincar tanto quanto precisamos de afeto, limites ou de um prato de comida.
Quem teve a sorte de crescer em um lar que funcionava como um porto seguro aprendeu desde muito cedo que se expressar é o básico para a saúde mental.
Nesses ambientes, as crianças tinham espaço para descobrir o que gostavam e podiam sentir raiva, tristeza ou alegria sem o temor de um julgamento avassalador. Pais que sabem brincar e rir de si mesmos ensinam, sem dizer uma única palavra, que o mundo pode ser também um lugar seguro e a criança entende que ser autêntico não a machuca.
Mas a questão é mais complicada para quem cresceu sob o império da rigidez.

Se hoje você sente que ser espontâneo é praticamente uma sessão de tortura e constrangimento, é bem provável que a sua infância tenha sido um treinamento de sobrevivência militar.
Em casas onde qualquer demonstração de afeto ou empolgação era recebida com ironia, deboche, silêncio ou broncas litúrgicas, o registro impresso nas suas entranhas foi:
engole o choro e se comporta!
São aquelas famílias onde o desempenho, a ordem e o dever eram entidades intocáveis, e relaxar era rotulado como vagabundagem ou perda de tempo. Você não foi educado para ser criança, foi treinado para ser um adulto miniatura, ultra-mega-responsável e silencioso.
Se você puxar o fio da ansiedade, vai encontrar quase sempre o mesmo nó: a inibição da espontaneidade. A relação entre as duas é uma via de mão dupla.
Quanto menos espontâneo você consegue ser, mais a ansiedade cresce. E, quanto mais ansioso e com medo do julgamento você fica, menor é a sua capacidade de agir com fluidez. É uma dinâmica que se retroalimenta.

Resumindo:
se podamos a espontaneidade, plantamos a ansiedade.
Se quando você era criança foi podado o direito de relaxar, na vida adulta você pode autoperpetuar esse mesmo boicote. É aí que a ansiedade aparece de três maneiras bem sorrateiras:

A primeira é a ditadura do fazer. Você cria um modo de autoexigência tão rígido que a sua vida se resume a produzir, performar e acertar. Não existe espaço para descansar (se ficar sem fazer nada a culpa aparece na hora). Até o seu lazer vira uma obrigação com hora marcada no Google Agenda (e organizado no Notion e orçado no Excel).
Você é aquela pessoa que transforma as férias em um cronograma de metas ou que joga um futebol no fim de semana com o nível de estresse de quem está disputando uma final de Copa do Mundo. A conta desse estilo de vida é alta: insônia, impaciência, dificuldade de desligar a cabeça, fadiga crônica ou, quem sabe, o corpo bugando na forma de uma crise de pânico.

A segunda reação é construir uma armadura medieval de ferro. Para evitar o risco de parecer inadequado ou de sofrer uma desaprovação, você usa uma racionalidade fria e esconde as suas emoções. Rir alto, demonstrar afeto intenso ou fazer uma brincadeira boba parecem perigosos demais. Só que manter policiamento ferrenho para não perder o controle consome uma baita energia e te deixa em um estado crônico de tensionamento.
Por fim, a própria ansiedade bloqueia os seus movimentos. O medo obsessivo de cometer um erro, de ser julgado ou de parecer "bobo" diante dos outros simplesmente desliga a sua tomada. Para se proteger do risco de se expor, você aciona uma estratégia de sobrevivência que implica se isolar, evitar situações desafiadoras, funcionar de forma totalmente mecânica e se desconectar de si mesmo. A vida aqui começa a escorrer pelos seus dedos na tentativa de evitar o julgamento do outro ou de não frustrar a si mesmo.
O déficit da espontaneidade aumenta o nível sofrimento, a boa notícia é que resgatar ela seria como um remédio. Quando você se autoriza brincar, o seu cérebro recebe um aviso de que o perigo passou, regulando naturalmente o seu sistema de ameaça e desligando o botão do pânico.
É esse sistema que te dá forças para combater e banir aquela danada voz crítica e punitiva que habita aí dentro, aquela parte que você herdou do passado e que te exige uma perfeição inatingível.
A sua ansiedade adora o que a prática de mindfulness descreve como o "modo de fazer". É aquele estado mental exaustivo onde você passa o tempo todo analisando, julgando e planejando obsessivamente, tentando resolver as suas emoções como se fossem problemas matemáticos só para evitar o sofrimento.
Ser espontâneo obriga você a mudar a chave para o "modo de ser". Um estado que não julga, que aceita e que ancora você na experiência direta do presente.
Mas cuidado para não confundir espontaneidade com falta de limite. Sabe aquela pessoa que se orgulha de "falar tudo o que pensa", que atropela os outros e age como se o mundo fosse o seu parquinho particular? Isso é uma dificuldade de autocontrole e de colocar limites nos próprios impulsos.

A falsa espontaneidade
A espontaneidade é pautada no respeito ao outro e na própria integridade. A falsa espontaneidade envolve a criança impulsiva e indisciplinada que tem aí dentro de você. Ela costuma nascer em lares permissivos demais, onde faltaram limites realistas. Quem cresceu neste ambiente não aprendeu a tolerar a frustração e se transformou em um adulto que funciona no modo "eu quero e quero agora". São pessoas que agem por impulso, com dificuldade de frear os próprios desejos ou de enxergar o impacto que causam ao redor.
A verdadeira espontaneidade é um contrapeso indispensável para o medo e a ansiedade.
Vivenciar momentos de prazer e de expressão livre dá a você a certeza visceral de que está seguro. É assim que você constrói a sabedoria emocional necessária para desarmar o estado de alerta crônico e, finalmente, aproveitar a vida como o adulto livre e autônomo que você tem o direito de ser.


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