Por que sentimos vergonha de chorar?
- Tatyana Bonamigo | Psicóloga

- há 2 dias
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Eu estava ali, na penumbra do quarto, com os olhos cheios de lágrimas e o rosto enxarcado, vivendo a dor de Jamie e Claire Fraser nos últimos minutos do capítulo final de Outlander. Quando, de repente, a porta se abriu e meu marido entrou. ![]() Pensei rapidamente em como poderia esconder meu rosto para ele não ver os sinais do crime (ou do choro). Senti o típico constrangimento de ser pega em um momento de pura vulnerabilidade, mesmo sendo diante de uma tela, em uma situação tão "leve". ![]() Por que, afinal, temos tanta vergonha de demonstrar o que sentimos?
Em um primeiro momento, a minha vontade de me esconder foi fugaz. Mas decidi não fazer isso. Como psicóloga, analisei rapidamente a situação: por que eu estava sentindo vergonha de uma reação tão humana? Decidi me empoderar do meu choro e do meu humor. Olhei para ele, com o rosto ainda banhado, e disparei: "Sim, estou chorando e muito! É uma linda história de amor e ele morreu neste momento!". Não vou contar aqui o que aconteceu depois, mas garanto: o final não foi bem o que eu esperava.
Se o choro é um evento fisiológico tão natural quanto sentir fome ou frio, por que, em pleno século XXI, ainda corremos para baixo das cobertas para esconder as lágrimas? A resposta reside na 'armadura' que construímos no decorrer da vida. Nossa cultura ocidental, obcecada pelo sucesso e pelo controle absoluto, rotulou a vulnerabilidade como um defeito. Ouvimos desde cedo que chorar é coisa de pessoas 'fracas', uma mensagem que muitos de nós internalizamos como uma regra absoluta para sobreviver à rejeição do grupo. A ciência psicológica explica que o choro faz parte da nossa biologia empática em pleno funcionamento. Como seres sociais, nosso cérebro imita a dor ou o amor que vemos na tela para nos manter conectados, faz parte da sobrevivência.
A vontade de me esconder, portanto, não tem raízes na biologia, mas no aprendizado cultural. Meu 'Crítico Interior', treinado por anos de invalidação, sussurrou que eu estava sendo fraca. Foi preciso a lucidez do momento para quebrar esse condicionamento e entender que eu apenas estava sentindo o que é ser humana. Aceitar o choro é uma forma de Aceitação Radical:
Na próxima vez que você se emocionar com uma cena, um livro ou uma lembrança, tente não correr para as cobertas. Apenas deixe estar. Chorar é a prova de que temos um coração batendo e que nosso afeto está vivo. O final da série me deixou com um "como assim?!". O choro foi embora, a indignação tomou conta. E está tudo bem. |




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