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Por que sentimos vergonha de chorar?

  • Foto do escritor:  Tatyana Bonamigo | Psicóloga
    Tatyana Bonamigo | Psicóloga
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Eu estava ali, na penumbra do quarto, com os olhos cheios de lágrimas e o rosto enxarcado, vivendo a dor de Jamie e Claire Fraser nos últimos minutos do capítulo final de Outlander. Quando, de repente,  a porta se abriu e meu marido entrou.



Pensei rapidamente em como poderia esconder meu rosto para ele não ver os sinais do crime (ou do choro). Senti o típico constrangimento de ser pega em um momento de pura vulnerabilidade, mesmo sendo diante de uma tela, em uma situação tão "leve".


Choro de Mulher (1947), de Candido Portinari
Choro de Mulher (1947), de Candido Portinari

Por que, afinal, temos tanta vergonha de demonstrar o que sentimos?

 

Em um primeiro momento, a minha vontade de me esconder foi fugaz. Mas decidi não fazer isso. Como psicóloga, analisei rapidamente a situação: por que eu estava sentindo vergonha de uma reação tão humana?


Decidi me empoderar do meu choro e do meu humor. Olhei para ele, com o rosto ainda banhado, e disparei: "Sim, estou chorando e muito! É uma linda história de amor e ele morreu neste momento!". Não vou contar aqui o que aconteceu depois, mas garanto: o final não foi bem o que eu esperava.

 

Se o choro é um evento fisiológico tão natural quanto sentir fome ou frio, por que, em pleno século XXI, ainda corremos para baixo das cobertas para esconder as lágrimas?


A resposta reside na 'armadura' que construímos no decorrer da vida. Nossa cultura ocidental, obcecada pelo sucesso e pelo controle absoluto, rotulou a vulnerabilidade como um defeito. Ouvimos desde cedo que chorar é coisa de pessoas 'fracas', uma mensagem que muitos de nós internalizamos como uma regra absoluta para sobreviver à rejeição do grupo.


A ciência psicológica explica que o choro faz parte da nossa biologia empática em pleno funcionamento. Como seres sociais, nosso cérebro imita a dor ou o amor que vemos na tela para nos manter conectados, faz parte da sobrevivência.

 

A vontade de me esconder, portanto, não tem raízes na biologia, mas no aprendizado cultural. Meu 'Crítico Interior', treinado por anos de invalidação, sussurrou que eu estava sendo fraca. Foi preciso a lucidez do momento para quebrar esse condicionamento e entender que eu apenas estava sentindo o que é ser humana. Aceitar o choro é uma forma de Aceitação Radical:


não precisamos nos justificar por sentir a vida pulsar nas nossas entranhas.

Na próxima vez que você se emocionar com uma cena, um livro ou uma lembrança, tente não correr para as cobertas. Apenas deixe estar. Chorar é a prova de que temos um coração batendo e que nosso afeto está vivo. O final da série me deixou com um "como assim?!". O choro foi embora, a indignação tomou conta. E está tudo bem.




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