O vazio existencial na superdotação: por que pessoas com altas habilidades/ superdotação são mais vulneráveis às crises de sentido?
- Tatyana Bonamigo | Psicóloga

- 29 de jun.
- 3 min de leitura
Duas amigas conversavam na mesa ao lado no café. Uma delas soltou, com aquela ingenuidade quase invejável: “Mas você é tão inteligente, tem até laudo de superdotação, não entendo como fica tendo essas crises existenciais...”
O raciocínio do senso comum adora uma conclusão simplista e cartesiana. Na lógica superficial, se você sabe resolver problemas complexos, deveria saber exatamente o que está fazendo neste planeta. Mas a vida não funciona assim para pessoas com altas habilidades/ superdotação (AH/SD). Estudos sugerem que adultos com altas habilidades/superdotação apresentam maior vulnerabilidade a crises existenciais e questionamentos sobre o sentido da vida quando comparados à população geral.

A crise existencial surge quando a pessoa perde a sensação de que sua vida possui significado, direção ou propósito. Esse vazio costuma vir acompanhado de ansiedade, desesperança, humor deprimido e uma sensação persistente de desconexão consigo mesma, com os outros e com o mundo.
Um dos elementos centrais dessa experiência é a dificuldade de pertencimento. Muitas pessoas com AH/SD descrevem a sensação de serem profundamente diferentes das demais, frequentemente incompreendidas, deslocadas ou emocionalmente isoladas.
Origens e desencadeadores das crises existenciais na superdotação
Crises existenciais estão intimamente ligadas à forma intensa como as pessoas superdotadas processam e sentem o mundo. A crise existencial costuma ser desencadeada por características muito comuns na neurodivergência, como:
Empatia intensa e indignação moral: adultos superdotados costumam exibir uma sensibilidade emocional extrema e uma compaixão profunda. O mobilizador para a crise existencial muitas vezes é a rápida indignação diante de injustiças, atos desumanos e o peso de um sentimento avassalador de responsabilidade pelo bem-estar dos outros e pelo avanço da humanidade. Eles tendem a processar o sofrimento alheio com elevada intensidade, o que pode levá-los a um esgotamento emocional e existencial.
Consciência da disparidade entre potencial e realização: a angústia bate forte quando a pessoa percebe a lacuna entre a sua alta capacidade e o que ela de fato conseguiu realizar até o momento. Saber do que é capaz, mas se sentir estagnado ou pouco aproveitado, gera um sofrimento profundo e muitos questionamentos sobre o próprio valor.
Desalinhamento de valores e propósito: trabalhar em ambientes que não oferecem um significado maior ou que entram em choque com seus valores morais atua como um forte desencadeador de crise. Por exemplo, uma intolerância crescente a ambientes corporativos e competitivos que visam o "sucesso a todo custo" pode levar a pessoa se sentir perdida, a agonizar sobre o propósito de sua carreira e a desenvolver a sensação de que está vivendo uma fraude.
Isolamento crônico e sentimento de não pertencimento: o sentimento de ser sempre diferente das outras pessoas, somado à sensação de ser constantemente ignorado ou incompreendido. Compromete uma necessidade humana básica: a de pertencimento. A dificuldade de encontrar pares verdadeiros, que compartilhem a mesma visão de mundo e intensidade, empurra a pessoa para o isolamento e para o vazio existencial.
Paralisia pela pressão por desempenho: muitas pessoas com altas habilidades crescem ouvindo que seu potencial precisa ser plenamente aproveitado, internaliza a expectativa de que seus talentos "precisam dar frutos". O peso dessa cobrança (seja da sociedade, dos chefes ou de si mesma) cria uma necessidade constante de excelência que, paradoxalmente, acaba paralisando o indivíduo. A frustração por não alcançar essas demandas idealizadas costuma ser o estopim perfeito para a perda de sentido.
Psicoterapia e crise existencial
No consultório, percebo que a crise de sentido é uma das razões mais frequentes pelas quais adultos com altas habilidades procuram psicoterapia. Em muitos casos, o sofrimento nasce da percepção dolorosa de uma distância entre o potencial que reconhecem em si e a vida que conseguem construir na prática. Essa discrepância pode favorecer sentimentos persistentes de vazio, desesperança e desmotivação.
Por isso, o trabalho psicoterapêutico exige um profissional que compreenda as particularidades da superdotação e não patologize automaticamente sua intensidade emocional, cognitiva e moral. O caminho do tratamento envolve ajudar o paciente a ressignificar essa sensibilidade e ajudar o paciente a transformar sua intensidade em ações coerentes com seus valores, interesses e projetos de vida.

Como lidar com a crise existencial
A literatura mostra que a generatividade, isto é, investir tempo, conhecimento e energia em contribuições que ultrapassem os interesses individuais, atua como um importante fator de proteção.
Quando a pessoa direciona suas capacidades para projetos alinhados aos seus valores e que produzem impacto positivo sobre outras pessoas ou sobre a sociedade, tende a experimentar maior sentido existencial, satisfação com a vida e bem-estar psicológico.
Referências
Jacobsen, Mary-Elaine. Arousing the Sleeping Giant: Giftedness in Adult Psychotherapy. Roeper Review, [s. l.], v. 22, n. 1, p. 36-41, set. 1999.
Vötter, B., & Schnell, T. (2019). Bringing giftedness to bear: Generativity, meaningfulness, and self-control as resources for a happy life among gifted adults. Frontiers in Psychology.



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